Um homem foi encontrado morto ao p de uma torre e lica. O laudo diz queda. A mulher que o achou diz que a testa dele estava quente.
Z do Cabo tinha sessenta e um anos, pescava no Delta do Parna ba desde os nove e presidia a associa o de moradores de uma vila com quarenta e uma casas. Encontraram o corpo s quatro e meia da manh , na areia, ao lado da torre 14. A pol cia encerrou o caso antes do almo o.
Rafael Guerra ouve a not cia em Macei , mil e duzentos quil metros dali, e reconhece o nome na hora - gravou um epis dio com aquele homem dois anos antes. Depois descobre outra coisa: Z do Cabo mandou tr s mensagens para ele no ltimo ano. Nenhuma foi respondida.
Rafael dirige dois dias para chegar. O que encontra um contrato de vinte e uma p ginas assinado por setenta e uma pessoas em duas tardes, a dois minutos por assinatura, num galp o com bolo e cesta b sica. Quarenta e nove anos de prazo. Trezentos e oitenta reais por hectare por ano. Uma cl usula que pro be o dono de plantar, cercar ou construir na pr pria terra.
E tr s assinaturas de gente que j estava morta.
Contra ele: uma empresa com selo internacional de energia limpa, uma executiva brasileira que fez palestra sobre transi o justa, e uma cadeia de empresas que vai ficando mais barata a cada degrau - at chegar num homem de camisa polo que cresceu na mesma rua da v tima.
A favor dele: uma catadora de caranguejo que aprendeu a ler aos quarenta e dois anos.
E leu em voz alta.