Berlim, 1921.
Ele tem vinte e um anos e acaba de assumir o balc o da Pfandleihe de Levy, na Linienstra e. Todos os dias, objetos atravessam o vidro - colheres de prata, alian as de casamento, rel gios gravados com datas de anivers rio, violinos que ainda guardam o cheiro de resina. Ele os pesa cuidadosamente contra padr es de lat o, escreve o bilhete, dobra-o uma ou duas vezes e o devolve. O marco ainda significa algo. A promessa ainda se sustenta.
Ent o o papel se multiplica.
Durante a hiperinfla o, clientes chegam com carrinhos de m o cheios de notas que perdem valor antes do anoitecer. As prateleiras se esvaziam medida que vidas s o desmontadas objeto por objeto. A estabiliza o vem depois, mas o que foi entregue n o retorna. Os sal rios congelam. As gavetas ficam vazias. A aritm tica da sobreviv ncia torna-se mais silenciosa e mais exata.
Quando um panfleto prometendo trabalho, p o e ordem deixado sobre o balc o, Elias o l como leu todos os bilhetes antes dele. Ele o dobra uma vez e o coloca no bolso. Pela primeira vez em muito tempo, aquilo parece ter peso.
Narrado como um memorial p stumo escrito de dentro de um vag o de deporta o, O Peso da Abund ncia um relato contido e implac vel de como o sentido se desprende - do metal ao papel, do papel promessa - e de como, ao final, at mesmo a ordem se dissolve em fuma a.