O meu tio Helder, Eva - eva palavra em s nscrito que quer dizer em verdade - iniciei esta narrativa na adolesc ncia quando minha alma era um estado de perd o e eu pasmava do mist rio dos parentescos - nesta altura, todos os que me conheciam me consideravam anormal ou doente e escrever era para mim um acto de obedi ncia in rcia, ao movimento natural de tudo e anterior pr pria vida e como se tivesse chegado adormecida pr pria vida, medida que eu despertava as coisas se compunham pela escrita e eu ligava todos os elementos da vida, todos os dados da minha mem ria son mbula de tudo. A vida desligaria tudo, o meu ser seria rompido e as palavras, por consequ ncia, permaneceriam moribundos na minha boca em sangue e j n o irreal de vida e de morte e deste modo tamb m a narrativa, sem conseguir irromper: fiapos como co gulos do pensamento. Por este facto, o da irrealiza o, que hoje eu sou anormal e doente e, como quem j n o se importa se aparece nu em p blico na fealdade em que o negligenciado votado ou se v o injuri -lo, lastim -lo ou rir dele, apresento ridiculamente o momento mais fr gil da cria o: a sua g nese (for a e beleza) ligado como siam s ao momento mais desanimado, ligado agonia: o fracasso da vida, o da morte na gesta o. Teria tamb m o Criador muitas vezes tentado a cria o e ter sido tamb m ele interrompido? Quem sabe a Terra - e digo isto por via da Hist ria - n o seja deste facto a v tima e a testemunha? - Talvez Ele seja interrompido quando usado como meio de vingan a ou suposta justi a: os homens n o se cansam de dar li es aos homens, na maioria das vezes apenas se escandalizando com o que h -de de bom e genu no no seu irm o para a este paralisarem - estrat gia para a devora o que lhe preparam e assim o melhor no outro frustrar o para que, por entre uma usurpa o, este se artificialize e se apresente o substituto, que n o tem direito sequer ao parentesco de bastardo, natural e martirizado no processo oculto (a forma desleal) em que fabrica tal naturalidade, isto , em que se apresenta algo que n o , algu m que n o e em la os n o seus, em suma numa rela o forjada de tudo e com tudo - pois o usurpador n o pode de todo ignorar aquele que usurpou, este a est para reclamar o seu - ent o o usurpador tem que se fazer do usurpado a v tima. O usurpado, no entanto, continua a existir e onde se habita ele agora em si? Sua casa esventrada serviu de tero a que ileg timo Jonas? Quem o saber se n o o que saiu morto luz do dia para o espa o do mundo que dele h -de rir? O mundo o ver como o g meo segundo, aberra o e aborto disputando a vida e o ser original - anedota do outro mundo contada neste mundo para sacia o deste mundo e do outro. Mas nem tudo negativo pois ao apresentar a minha literatura interrompida apresento tamb m os ciclos da cria o, n o mostro a face da interrup o sem mostrar tamb m a da cria o - mas n o como duas faces dum mesmo rosto, antes como a superf cie plana de um espelho vomitando as profundidades consubstanciadas do que passivamente testemunha, para um quarto vazio, como num palco - os espectadores, as paredes que se cimentam do que olham e veem do que o espelho v e absorve - Pois apenas o sil ncio testemunha da verdade. MJ ACunha
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