Nota de Autor
Terminei este livro em 2022, ou foi isso que disse a mim mesmo, porque afirmar que um livro est terminado talvez a mentira mais est pida que um escritor tem m o. Larguei-o, voltei, mexi em linhas in teis, tirei outras que faziam falta e, por cansa o ou lucidez, decidi que estava feito. Mas n o o publiquei.
Foi escrito sobretudo em avi es sem Internet, conventos involunt rios com menos Deus e pior comida. Escrevi-o em escalas, muitas em Frankfurt, onde uma pessoa n o est bem na Alemanha nem fora dela, apenas espera de uma porta, de um painel, de uma voz robotizada.
Nesses s tios, enquanto o mundo fazia barulho, eu ia para a Cecilia. N o por plano, nem por pose liter ria, mas porque estar ali era melhor do que estar onde eu estava. Havia uma mesa, uma estrada, um quarto, uma mulher, uma conversa por terminar, por vezes sexo e at amor. Bastava.
Este livro fic o, conv m diz -lo antes que algum advogado venha procurar no narrador um eu verdadeiro, na Cecilia uma mulher com morada, ou numa Mariangela a prova de que a realidade andou ali mal disfar ada. A fic o nasce do que vi, inventei, recordo mal, recordo bem e roubei sem pudor.
O narrador tem a minha idade em certas p ginas, a minha impaci ncia noutras e demasiada educa o emocional deficiente. Mas n o sou eu. Ou n o sou s eu, que j uma forma honesta de mentir. H , no livro, pelo menos um filho da puta. O Matteo personagem, mas a esp cie existe.
A Cecilia veio depois da Mia e de outros livros parecidos. N o h p dio, invent rio ou tabela. Veio depois porque foi a que chegou. Os livros, como as pessoas, raramente chegam quando nos conv m.
Escrevi esta nota em 2026, porque s agora decidi publicar a Cecilia. Este o livro dela, ou do que ela me obrigou a pensar enquanto a escrevia. N o como trof u, arquivo ou pe a de colec o masculina. S como uma mulher. E houve dias em que percebi que n o estava apenas a invent -la: estava, com atraso consider vel, a aprender a olhar para ela.