Eu me chamo Alina O'Connell, tenho trinta e seis anos, e moro sozinha num apartamento onde o tempo n o corre - ele caminha.
Sou autista. N o gosto de pressa. Nem de barulho. As pessoas l fora gostam de urg ncias, e eu nunca entendi por que gritar ajuda a resolver qualquer coisa. O que fa o bem, fa o em sil ncio.
Trabalho de casa. Restaura o de fotos antigas. Fragmentos do passado me dizem mais do que a pressa do presente. Gosto de madeira gasta, de vidro fosco, de chaleiras que assobiam. Do som abafado das cortinas pesadas fechando o mundo l fora.
Vivo assim. Sozinha, mas em paz.
At que comecei a ouvir.
Primeiro foi um sussurro. Depois, uma pergunta:
- Voc est a ?
A voz vinha do sil ncio, mas parecia viva. Antiga.
Como se algo estivesse selado h muito tempo - e agora me visse. Me chamasse.
Como se houvesse uma catedral dentro de mim, e uma porta tivesse se aberto.
N o sei por que respondi. Talvez porque ningu m mais perguntava.
Talvez porque, no sil ncio, qualquer som que me nomeie... soa como afeto.
Agora, tem algo me chamando.
Algo que v por dentro das minhas veias.
E o pior de tudo - que eu vejo de volta.